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Quando Kennedy substituiu o Brasil

A mudança do nome da Avenida Brasil em Taubaté e a materialização do excepcionalismo americano durante a Guerra Fria.

Por Angelo Rubim

Em 2013 o Almanaque Urupês publicou um breve texto demonstrando quando e qual a justificativa para mudar o nome da então Avenida Brasil para Avenida John Fitzgerald Kennedy. É um compilado do projeto de Lei 666/63,disponível no site da Câmara Municipal de Taubaté.

Objetivamente foi o seguinte: em 22 de novembro de 1963, John Kennedy foi assassinado durante um desfile em Dallas. O evento desencadeou uma onda de manifestações ao redor do mundo, demonstrando o alcance da sua popularidade.

Apenas três dias depois, o vereador Hélio Zamith propôs mudar o nome da Avenida Brasil, no loteamento Jardim das Nações, por Avenida John Fitzgerald Kennedy.

Na justificativa do vereador,

“A denominação de uma via pública como o nome de John Kennedy, é justa homenagem que o povo de Taubaté presta ao grande vulto da humanidade que tanto lutou pelo entendimento entre os homens”. – Projeto de Lei 666/63

E o amparo legal para que a homenagem se concretizasse estava no fato de que em Taubaté existiam duas vias com o nome Avenida Brasil, aquela do Jardim das Nações e uma mais antiga, no loteamento Vila São Geraldo.

A proposta de Zamith tramitou por mais de um ano e só virou lei em 29 de dezembro de 1964.

Neste intervalo, o cenário político brasileiro mudou sensivelmente. O país testemunhou a efetivação de um golpe de estado que levou ao período mais violento da história da república, bem como selou o alinhamento ideológico com os Estados Unidos.

A cidade sobre a colina

Em janeiro de 1961, poucos dias antes de assumir a presidência, John Kennedy recuperou uma antiga metáfora da tradição política norte-americana. Citando John Winthrop, afirmou que os Estados Unidos deveriam agir como uma “cidade sobre a colina”, permanentemente observada pelo restante do mundo.

A imagem sintetizava a ideia de que a experiência histórica americana possuía um significado universal e poderia servir de exemplo para outras nações. É o que se convencionou chamar de excepcionalismo americano.

Foi nesse contexto que a teoria da modernização ganhou centralidade. Desenvolvida desde a década de 1950, ela encontrou no governo Kennedy sua principal tradução política. Foi quando, na interpretação do historiador Michael E. Latham, a modernização tornou-se uma ideologia da política externa americana. 

“O conceito de modernização era muito mais do que um modelo acadêmico. Era também um meio de compreender o processo de mudança global e de identificar maneiras pelas quais os Estados Unidos poderiam acelerá-lo, direcioná-lo e conduzi-lo” – Latham, 2000, p. 16 (em tradução livre)

A partir dessa perspectiva, os Estados Unidos apresentavam-se como uma nação singular, portadora de valores universais e chamada a conduzir os países do chamado Terceiro Mundo rumo ao desenvolvimento. Programas como a Aliança para o Progresso expressavam essa visão, combinando assistência econômica, cooperação técnica e diplomacia cultural em plena Guerra Fria.

O caminho para a homenagem

Homenagear Kennedy respondia ao clima político e ideológico da época. Mas ela precisava também encontrar respaldo na legislação municipal.

Poucos meses antes do atentado de Dallas, Taubaté havia aprovado a Lei nº 702/63, que regulamentava a nomenclatura de ruas e logradouros públicos. O artigo 4º determinava que “as denominações populares e tradicionais das ruas […] não poderão ser alteradas, salvo a hipótese de fato relevantíssimo”.

A Avenida Brasil do Jardim das Nações nunca havia sido oficializada por lei. Seu nome havia sido atribuído pelos próprios proprietários do loteamento. Ainda assim, era uma denominação consolidada no cotidiano da cidade e fazia sentido dentro da lógica urbanística do bairro, cujas vias homenageavam diferentes países.

O projeto apresentado por Hélio Zamith encontrou uma solução para o problema. A existência de outra Avenida Brasil, oficialmente reconhecida desde 1944 na Vila São Geraldo, permitia enquadrar a proposta como uma correção administrativa da duplicidade de nomes. A morte de Kennedy, por sua vez, foi entendida como o “fato relevantíssimo” previsto pela legislação.

A sacralização Kennedy

No arquivo dos processos legislativos da Câmara há documentos de dois eventos que mostram a convergência entre a imagem internacional que o governo Kennedy procurava construir e aquela reproduzida pelos vereadores taubateanos.

Para que Kennedy virasse nome de rua em Taubaté, a Câmara não economizou nos adjetivos. O presidente americano é apresentado como o “grande vulto da humanidade que tanto lutou pelo entendimento entre os homens”.

O fechamento dessa etapa de exaltação se encerrou quando o projeto 666/63 foi sancionado e transformado na lei nº 847 de 29 de dezembro de 1964, que determinava que a placa indicativa deveria constar “os seguintes dizeres: AVENIDA JOHN F. KENNEDY – Defensor da liberdade humana”.

Mas essa foi uma das duas homenagens “prestadas pelo povo de Taubaté” (parafraseando Zamith). 

Outra curiosa iniciativa foi apresentada pelo então presidente da Câmara, vereador Ameletto Marino.

Era a resolução 2 de 1964, que autorizou “a colocação do retrato de John F. Kennedy nas dependências da Câmara Municipal”, proposta apresentada em 2 de março, mas que só se efetivou em novembro daquele ano e no ato solene teve a presença do cônsul Fred W. Dickens Jr.,  diretor do Serviço de Divulgação e Relações Culturais da Agência de Informações dos Estados Unidos.

Na justificativa de Ameletto, a Kennedy foi atribuída uma posição de liderança na busca pela paz mundial “num momento difícil para a humanidade”. E para além disso, o americano é considerado “exemplo de amor à causa democrática do mundo livre”, a imagem de um homem sem preconceitos, lutador pelos direitos humanos e “intransigente defensor dos homens de cor”.

Lidos em conjunto, os dois documentos demonstram o clima ideológico da época. Fosse por ação deliberada ou por sincera convicção, a Câmara de Taubaté sacralizou a imagem do personagem, fazendo de Kennedy a personificação da democracia, da liberdade e do progresso. Não por acaso, um dos pareceres de Comissão afirmava que ele havia proporcionado aos “países amigos” o bem-estar alcançado por meio da Aliança para o Progresso. 

A Tribuna – 21/11/1964

Penso que seja esse o ponto de encontro com a interpretação de Michael E. Latham. Ao analisar a política externa do governo Kennedy, o historiador afirma que a Aliança para o Progresso “incorporava a ideologia da modernização”, enfatizando “o poder transformador dos Estados Unidos”, legitimando sua atuação na América Latina e permitindo que seus formuladores se percebessem como participantes de um esforço “altruísta, humanitário e missionário” (LATHAM, 2000, p. 105, tradução livre).

Em outra passagem, Latham observa que, em plena Guerra Fria, o Peace Corps apresentava os Estados Unidos “como uma nação excepcional, preparada para ajudar o mundo ‘emergente’ a superar desafios que os americanos haviam enfrentado muito antes” (LATHAM, 2000, p. 126, tradução livre).

À luz dessas interpretações, as homenagens prestadas em Taubaté podem ser compreendidas como um indício da circulação, apropriação e ressignificação de uma narrativa política produzida em escala internacional. No discurso dos vereadores taubateanos, Kennedy foi elevado a personagem de relevância universal, digno de ocupar o mapa da cidade e um lugar de honra na própria Câmara Municipal.

Referências

ENGEN, Abram Van. How America Became “A City Upon a Hill”. Disponível em https://www.neh.gov/article/how-america-became-city-upon-hill

LATHAM, Michael E. Modernization as Ideology: American Social Science and “Nation Building” in the Kennedy Era. Ed. The University of North Caroline Press Chapell Hill an London, 2000.

JUNQUEIRA Mary Anne Junqueira. Símbolos, mitos e narrativas mobilizados na formação e consolidação da potência. Disponível em https://www.opeu.org.br/2022/05/17/simbolos-mitos-e-narrativas-mobilizados-na-formacao-e-consolidacao-da-potencia/

MOZER, Josiane. A trama internacional e o Golpe Empresarial-Militar de 1964: a ação político-ideológica da USIA no Brasil (1953-1964). Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 37, nº 82, e20240209, 2024. Disponível em https://periodicos.fgv.br/reh/article/download/90594/85932/206760

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