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Motetos de Taubaté

Os Motetos de Taubaté estão entre os registros musicais mais antigos do Brasil.

Imagem: Cristo na Cruz – Hendrick Goltzius (Netherlandish, Mühlbracht 1558–1617 Haarlem) – The Met

Angelo Rubim


Um dos registros musicais mais antigos do Brasil está em Taubaté.

Constitui-se em um conjunto de oito composições para a Procissão dos Passos, localizados e organizados pelo musicólogo Regis Duprat, chamadas por ele de “Motetos de Taubaté’.

Os Motetos de Taubaté, assim chamados por seus manuscritos serem oriundos daquela cidade do Vale do Paraíba – foram transcritos por Mary Angela Biason e executados a partir de 1984. Eles são, inegavelmente, composições do século XVIII, não obstante as cópias disponíveis datarem do início do século XIX. Independentemente do seu anonimato, a inclusão nesta coleção se justifica por constituírem eloquente amostragem do repertório executado no Vale em época tão recuada de nossa história. – Regis Duprat em “Música Sacra Paulista (1999)”

A Procissão dos Passos

A procissão dos passos é uma manifestação paralitúrgica que teve início no período quinhentista em Portugal. Trata-se de um ritual da Quaresma que encena o caminho de Jesus em direção ao Calvário, dividido em sete paradas, ou passos. Em cada uma havia um oratório e nesse local era executado um moteto em latim, com texto de origem bíblica, inspirado em uma cena da Paixão de Cristo.

The procession in Lisbon of the Senhor dos Passos da Graça. Coloured aquatint by A.P.D.G., 1826. (A procissão em Lisboa do Senhor dos Passos da Graça. Aquatinta colorida por A.P.D.G., 1826) – Wellcome Collection

No Brasil, a prática teria se iniciado no século XVII, e foi registrada entre 1658 e 1661 em Belém do Pará, pelo Padre Antônio Vieira. Há registros da prática em São Paulo nas últimas décadas daquele século e a sua popularização se deu em Minas Gerais no início do século XVIII.

A procissão dos A Procissão dos Passos, portanto, foi uma das cerimônias não litúrgicas que
mais rapidamente se proliferaram no Brasil, mas a documentação conhecida indica que,
pelo menos em São Paulo e Minas Gerais, esta devoção foi mantida preferencialmente
por irmandades e ordens terceiras, enquanto em Portugal era normalmente praticada por ordens conventuais – Paulo Castagna em A música para a Procissão dos Passos…

A transcrição dos motetos

Os oito motetos encontrados por Duprat foram transcritos e compilados na obra “Música Sacra Paulista” (1999). Pater mi, Bajulans, Angariaverunt, O vos omnes, Exeamus, Filiae Jerusalem, Popule meus e Domine Jesu.

Segundo o regente Alberto Cunha, eles são “algumas das mais antigas obras musicais preservadas no Brasil.”

O vos omnes, transcrição de Mary Angelo Biason, em Música Sacra Paulista (1999), p. 30, de Regis Duprat (org.)

Junto do CoralUSP, Cunha executou e registrou O vos Omnes, texto bíblico provavelmente escritos na Palestina depois da queda de Jerusalém em 586 a.C.

O vos Omnes é um texto poético atribuído ao profeta Jeremias, retratando a angústia de quem perdeu tudo. É usado na Semana Santa para celebrar a Paixão de Cristo. Na obra de Duprat, o texto é o que segue:

O vos omnes, qui transitis per viam, attendite et videte, si est dolor sicut dolor meus. – Duprat (1999)

Em tradução livre: “Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor semelhante à minha dor”

Segundo Alberto Cunha

Muitos compositores musicaram estas palavras, de modo que há várias peças intituladas “O Vos Omnes” na história da música. Esta de autor anônimo é uma composição para coro misto a quatro vozes, em estilo derivado do Classicismo europeu do século dezoito. – disponível em https://acervocoralusp.home.blog/2020/12/01/o-vos-omnes/

O regente disponibilizou a execução do moteto no site Acervo CoralUSP, que você pode acessar aqui e assistir na janela abaixo.

A execução da obra é precedida de uma explicação introdutória de 2 minutos e 37 segundos.

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Angelo Rubim é historiador e editor do Almanaque Urupês

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