Angelo Rubim
Um dos registros musicais mais antigos do Brasil está em Taubaté.
Constitui-se em um conjunto de oito composições para a Procissão dos Passos, localizados e organizados pelo musicólogo Regis Duprat, chamadas por ele de “Motetos de Taubaté’.
Os Motetos de Taubaté, assim chamados por seus manuscritos serem oriundos daquela cidade do Vale do Paraíba – foram transcritos por Mary Angela Biason e executados a partir de 1984. Eles são, inegavelmente, composições do século XVIII, não obstante as cópias disponíveis datarem do início do século XIX. Independentemente do seu anonimato, a inclusão nesta coleção se justifica por constituírem eloquente amostragem do repertório executado no Vale em época tão recuada de nossa história. – Regis Duprat em “Música Sacra Paulista (1999)”
A Procissão dos Passos
A procissão dos passos é uma manifestação paralitúrgica que teve início no período quinhentista em Portugal. Trata-se de um ritual da Quaresma que encena o caminho de Jesus em direção ao Calvário, dividido em sete paradas, ou passos. Em cada uma havia um oratório e nesse local era executado um moteto em latim, com texto de origem bíblica, inspirado em uma cena da Paixão de Cristo.

No Brasil, a prática teria se iniciado no século XVII, e foi registrada entre 1658 e 1661 em Belém do Pará, pelo Padre Antônio Vieira. Há registros da prática em São Paulo nas últimas décadas daquele século e a sua popularização se deu em Minas Gerais no início do século XVIII.
A procissão dos A Procissão dos Passos, portanto, foi uma das cerimônias não litúrgicas que
mais rapidamente se proliferaram no Brasil, mas a documentação conhecida indica que,
pelo menos em São Paulo e Minas Gerais, esta devoção foi mantida preferencialmente
por irmandades e ordens terceiras, enquanto em Portugal era normalmente praticada por ordens conventuais – Paulo Castagna em A música para a Procissão dos Passos…
A transcrição dos motetos
Os oito motetos encontrados por Duprat foram transcritos e compilados na obra “Música Sacra Paulista” (1999). Pater mi, Bajulans, Angariaverunt, O vos omnes, Exeamus, Filiae Jerusalem, Popule meus e Domine Jesu.
Segundo o regente Alberto Cunha, eles são “algumas das mais antigas obras musicais preservadas no Brasil.”

Junto do CoralUSP, Cunha executou e registrou O vos Omnes, texto bíblico provavelmente escritos na Palestina depois da queda de Jerusalém em 586 a.C.
O vos Omnes é um texto poético atribuído ao profeta Jeremias, retratando a angústia de quem perdeu tudo. É usado na Semana Santa para celebrar a Paixão de Cristo. Na obra de Duprat, o texto é o que segue:
O vos omnes, qui transitis per viam, attendite et videte, si est dolor sicut dolor meus. – Duprat (1999)
Em tradução livre: “Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor semelhante à minha dor”
Segundo Alberto Cunha
Muitos compositores musicaram estas palavras, de modo que há várias peças intituladas “O Vos Omnes” na história da música. Esta de autor anônimo é uma composição para coro misto a quatro vozes, em estilo derivado do Classicismo europeu do século dezoito. – disponível em https://acervocoralusp.home.blog/2020/12/01/o-vos-omnes/
O regente disponibilizou a execução do moteto no site Acervo CoralUSP, que você pode acessar aqui e assistir na janela abaixo.
A execução da obra é precedida de uma explicação introdutória de 2 minutos e 37 segundos.
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Angelo Rubim é historiador e editor do Almanaque Urupês

