O que a remoção de um obelisco revela sobre a memória de Taubaté
Demolido durante a reforma do Centro Cultural Toninho Mendes, o obelisco centenário da Praça Coronel Vitoriano reacende o debate sobre patrimônio, documentação histórica e decisões técnicas na cidade.
Quem passou pela Praça Coronel Vitoriano, no centro de Taubaté, entre os meses de dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, viu um espaço em obras e percebeu que a paisagem sofreu uma alteração irreversível: onde, por décadas, esteve um obelisco, agora há o vazio. O monumento foi demolido durante a reforma da praça e do Centro Cultural Toninho Mendes. A retirada passou quase despercebida por parte da população, mas levanta uma questão incômoda: o que acontece com um marco urbano quando sua história não está documentada?

A demolição foi autorizada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico após análise técnica que apontou a ausência de informações conclusivas sobre a origem, autoria ou finalidade do monumento. Sem um “título de nascimento”, o obelisco foi classificado como elemento ornamental, sem valor histórico individual reconhecido.
A decisão ocorreu em dezembro de 2025, no contexto de um projeto de requalificação que buscava ampliar a área livre da praça para apresentações culturais, integrando o espaço ao Centro Cultural Toninho Mendes.
O argumento central foi funcional: o obelisco dificultava a fluidez do espaço e não havia comprovação documental suficiente para justificar sua preservação.
Sem origem determinada
O paradoxo é que o obelisco estava ali há cerca de um século. A dificuldade de identificar sua origem já havia sido registrada pelo pesquisador Antonio Mello Junior, autor de Taubaté e seus Monumentos, publicado em 1979. Mesmo após consultar jornais antigos, atas da Câmara e depoimentos de moradores, Mello Junior não conseguiu localizar qualquer registro oficial de sua construção.

Em sua pesquisa, o autor registra que
“em antiga vista geral da cidade, tomada possivelmente em 1928 ou 1929, vemo-lo pintado de branco, no centro da praça, ainda despida da arborização agora ostentada”.
Lembra também que havia obelisco idêntico na atual Praça da Estação (Praça Geraldo Costa), na cidade de Tremembé, instalado depois da demolição de um coreto, episódio que Mello Junior classificou como uma “séria ofensa lesa-patrimônio”, uma intervenção típica da lógica modernizadora do período, que substituía marcos consolidados sem preocupação com a memória urbana.
Sendo assim, o pesquisador concluiu que tanto o obelisco taubateano quanto o tremembeense tratavam-se, provavelmente, de meras estruturas ornamentais.

A tentativa de dar sentido
Em 2010, o obelisco passou por uma tentativa de ressignificação. Uma placa de mármore foi instalada, atribuindo o monumento ao Coronel Vitoriano Moreira da Costa, figura central da história local e patrono da praça. A iniciativa buscava preencher uma lacuna histórica antiga.
Em “Taubaté e seus novos monumentos”, obra não publicada de Antonio Carlos Argôllo Andrade (disponível para consulta na Biblioteca Maria Morgado de Abreu), o historiador explicou a proposta:
“Aproveitando a base já existente há tanto tempo e completamente sem finalidade, apresentei a sugestão para que a mesma fosse utilizada para homenagear o patrono da própria praça, Coronel Vitoriano Moreira da Costa (1791-1872), último Capitão-mor da Vila de Taubaté, falecido em 1872 e sepultado na Capela do Pilar.”
Anos depois, porém, a placa foi furtada. O obelisco voltou a ser um marco sem explicação.

Quando a reforma da praça foi discutida, essa ausência de informação foi decisiva. Para parte dos conselheiros, o tempo de existência não era suficiente para garantir sua preservação. Para outros, justamente o fato de ter atravessado gerações tornava sua retirada irreversível do ponto de vista simbólico.
Decisão tomada
Ao final, prevaleceu a decisão pela demolição. A transferência do monumento foi descartada sob o argumento de
“inviabilidade técnica de transferência do monumento sem danos estruturais, em razão do material de que é constituído”.
Em contrapartida, ficou prevista a instalação de um totem ou memorial informativo “retratando o Centro Cultural Toninho Mendes e Coronel Vitoriano.”

O caso do obelisco da Coronel Vitoriano não é isolado. Taubaté possui outros obeliscos, erguidos em diferentes épocas, com destinos variados: alguns preservados, outros deslocados, outros mutilados pelo tempo. O que diferencia esses casos é, quase sempre, a existência de documentação histórica clara.
O debate sobre esses monumentos é ampliado em um vídeo produzido pelo Almanaque Urupês, dedicado aos obeliscos de Taubaté, disponível aqui ou diretamente no nosso canal no YouTube: [Link]
Situações semelhantes já haviam sido observadas no passado. Ao comentar a demolição do coreto de Tremembé e a construção de um obelisco na Praça Dr. Paulo Frontin, o pesquisador Antonio Mello Junior classificou a intervenção como
“impiedoso o pecado cometido pela administração municipal na fúria da modernização, embora boa a intenção do mandatário”.
A observação, feita décadas atrás, ajuda a compreender um padrão recorrente nas transformações urbanas da região: decisões tomadas em nome do progresso imediato, frequentemente bem-intencionadas, mas que produzem perdas simbólicas irreversíveis quando não são acompanhadas de registro, debate público e políticas consistentes de preservação.
Quando o marco não basta
A demolição escancara uma lógica recorrente na gestão do patrimônio urbano: sem registro, não há preservação. A materialidade, por si só, não garante proteção. Quando a história não está escrita, o monumento se torna vulnerável.
No lugar da pedra, fica a promessa de um QR Code. A memória deixa o espaço físico e migra para o arquivo digital. Cabe agora a pesquisadores, instituições e iniciativas independentes registrar o que já esteve ali, para que o desaparecimento do obelisco não seja sintoma de uma cidade que vem perdendo a sua memória.
Referências
ATA DE REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA 16/12/2025 – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Urbanístico, Arqueológico e Arquitetônico. Disponível em https://ecrie.com.br/sistema/conteudos/arquivo/a_241_0_1_17122025154408.pdf
Documento / Monumento – Arquivo Histórico Regional – AHR – UPF. Disponível em http://ahr.upf.br/download/TextoJacquesLeGoff2.pdf
Prefeitura assina termo de doação para revitalização do Centro. Disponível em […]https://www.taubate.sp.gov.br/noticias/planejamento/prefeitura-assina-termo-de-doacao-para-obras-no-teatro-do-centro-cultural-na-praca-cel-vitoriano
Taubaté recebe R$ 1,5 milhão em investimentos privados para obras públicas em 2025. Disponível em https://agoravale.com.br/noticias/Informativo/taubate-recebe-r-1-5-milhao-em-investimentos-privados-para-obras-publicas-em-2025
Turismo e processo de urbanização: desafios na preservação do patrimônio natural e cultural. Disponível em https://periodicos.fgv.br/oit/article/download/6888/5461/12689

