A CERÂMICA POPULAR DE TAUBATÉ

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Por Maria Morgado de Abreu*

 

Taubaté, cidade tri-centenária, conserva rico acervo de tradições que guardam influências das três raças básicas: lusa, africana e brasilíndia.

É uma herança multiforme, viva e colorida que se traduz em cariadas expansões da alma popular: nas alegres festas juninas e no farto repositório de crendices; nos ritmos contagiantes das danças folclóricas e nas tradicionais festas religiosas, na deliciosa ingenuidade da cerâmica popular e num “sem fim” de outros costumes pitorescos

 

Detalhe da página 29, da edição nº 73 da Revista Paulistânia, onde este artigo foi publicado originalmente
Detalhe da página 29, da edição nº 73 da Revista Paulistânia, onde este artigo foi publicado originalmente

A CERÂMICA POPULAR

Das heranças ancestrais, uma das mais valiosas é a arte ceramista de numerosos figureiros, que, demonstrando senso artístico, percepção e originalidade, fazem estória no barro.

De suas mãos hábeis, vão surgindo figurinhas que retratam tipos e cenas do povo, animais, crendices e tradicionais festanças.

A rusticidade na técnica, espontaneidade e pureza de concepção, caracterizam essa forma de manifestação artística, onde não falta uma certa dose de sátira individual e social.

 

HERANÇA E TRADIÇÃO

A habilidade na modelagem da argila, parece ser no Vale do Paraíba, mais uma herança portuguesa do que do índio ou do negro.

Nas regiões brasileira onde o contato com o índio foi menor, a cerâmica popular, deve ter maior ligação com a de Portugal que, dos países europeus, é um dos mais copiosos em artes populares e especialmente em olaria utilitária e decorativa.

Estremoz e Barcelos são exemplos de cidades portuguesas, onde a confecção de figurinhas de barro e peças de olaria, continua uma tradição popular.

Taubaté, inclui-se entre as poucas cidades brasileiras que preservam essa tradição.

Casa das tradicionais figureiras da Imaculada: Edith, Luiza e Cândida.
Casa das tradicionais figureiras da Imaculada: Edith, Luiza e Cândida.

 

INFLUÊNCIA CRISTÃ

Para Cecília Meireles “O grande veiculo da cerâmica popular no Brasil, como em outros países de influência cristã, parece ter sido o presépio”. (Cecília Meireles – “Aspectos da Cerâmica Popular” – ver. “Folclore”- nº1 – vol.2 – 1953 – pág. 46).

Na verdade, comenta a escritora brasileira, “O presépio mais simples inclui a Sagrada Família e dois animais: o burrinho e a vaca. Aí já temos vários exercícios de modelagem. A seguir vêm os pastores com seus carneiros e oferendas, vem o galo que deu o aviso, os Reis Magos com seus camelos, e começa a chegar gente de toda parte, cada qual com o seu modo de vida, com sua roupagem e as suas prendas”, (Opus Cit – Pág. 46).

O presépio, sendo antiga tradição do povo brasileiro, teve por certo, influência considerável, no desenvolvimento, da cerâmica popular do país.

Em Taubaté, armar presépio, é costume secular. Os antigos presépios, de grandes proporções, ocupavam em geral o principal cômodo da casa, que ficava rescendendo um cheiro gostoso de mato devido aos ramos de folhagem verde, colocados como saia do presépio, para encobrir sua armação.

Com tais proporções, eram usadas na montagem, – além de casinhas, igrejas, enfeites e das figuras tradicionais do Natal – muitas outras, representando o povo com seus usos e costumes.

As figuras, de confecção nacional ou mesmo estrangeira – principalmente portuguesa – era adquiridas e carinhosamente guardadas para os anos seguintes, pelas famílias que seguiam essa tradição cristã, ou a superstição segundo a qual, “se devia fazer presépio sete anos em seguida, senão, vinha desgraça”.

Muitas famílias, com menos posse ou mais habilidade manual e gosto artístico, faziam suas figurinhas de madeira ou de barro, fato que também foi se tornando tradição na cidade.

Ainda hoje em Taubaté e no Vale do Paraíba, a temática preferida na cerâmica popular continua sendo a das figuras natalinas.

São tradicionais e famosas, os presépios e implementos (barba-de-pau, flores de papel, lapinhas), vendidos nos domingos de dezembro, no Mercado Municipal de Taubaté, juntamente com centenas de outras figuras, de temas variados e de cunho profano, que vieram enriquecer a arte figurativa regional.

Atualmente – pela valorização e grande procura das figurinhas, como legítimas representantes da arte popular – os figureiros trabalham durante todo o ano e não só na época do Natal, e, o produto desse artesanato doméstico, é vendido nas casas dos figureiros ou na Feira do Pilar, nos domingos pela manhã.

Em dezembro, porém, os artesãos voltam a vender a cerâmica popular no largo do Mercado, como é tradição.

A importância do sentimento de religiosidade na tradição ceramista, aparece no fato de muitos figureiros serem também santeiros, conceituados na arte de reconstituir ou de fazer imagens.

O tradicional pavão dos figureiros da Imaculada feito pelas mãos de Eduardo Santos
O tradicional pavão dos figureiros da Imaculada feito pelas mãos de Eduardo Santos

 

A ARGILA

A argila ou barro, com dizem os figureiros, é matéria-prima abundante no Vale do Paraíba. Resultou da intensa sedimentação processada na Era Terciária, quando no Vale do Paraíba paulista, formou-se extensa lagoa de água doce. Com o escoamento das águas, a sedimentação aflorou em muitos pontos, o que explica a presença da argila e outros sedimentos lacustres em todo o Vale.

A tradição ceramista e cristã e a facilidade do barro, parecem explicar, a existência e continuidade da arte figurativa a que se dedicam em Taubaté, dezenas de famílias e figureiros isolados, num belo e tradicional artesanato.

 

DIFERENCIAÇÃO NA ARTE FIGURATIVA.

É curioso o fato de aparecerem nítidas diferenças entre as peças de barro feitas pelos figureiros do Morro de São João e São Pedro e as modeladas por ceramistas de outros locais da cidade.

O MORRO ou ALTO DO MORRO DE SÃO JOÃO  e SÃO PEDRO: é uma das colinas que emolduram o lado sul da cidade.

Nelas surgiram antigos e pitorescos bairros populares, pelo fato de ali passarem velhos caminhos para a zona rural e litoral (Ubatuba).

Ruas sem calçamento, casas simples alinhadas desigualmente, onde mora gente que “trabalha duro” e que por única riqueza tem o maravilhoso panorama da cidade e do Vale.

Aí é que mora grande número de figureiros, principalmente na rua da Imaculada.

É onde mora também o Folclore, com suas variadas expansões populares.

No jornal A Gazeta, de distribuição em todo estado paulista, o artista Cassio M'Boy ilustrava o cabeçalho do caderno de folclore. A obra "Natal de Jesus", tem ao fundo o galinho do céu do Vale do Paraíba. Edição de 7 de dezembro de 1962
No jornal A Gazeta, de distribuição em todo estado paulista, o artista Cassio M’Boy ilustrava o cabeçalho do caderno de folclore. A obra “Natal de Jesus”, tem ao fundo o galinho do céu de Taubaté. Edição de 7 de dezembro de 1962

Local onde se misturam crendices, superstições e, onde apesar do modernismo que toma conta da cidade, o povo teme o Saci, conta causos de assombração, faz passes de macumba nas encruzilhadas, e, esconjuros contra o Lobisomem, o Boitatá e outros duendes.

Sendo produto de nossa complexidade étnica e sofrendo o dinamismo das forças ambientais, o figureiro retrata no barro, toda a sua vivência – onde o divino e o sobrenatural têm parte preponderante.

O Sincretismo religioso, transparece nas figuras do presépio, procissões, nas concepções grotescas do Saci, Lobisomem, Cuca, Sereia e nas figuras das crendices negras: Pai e Mãe de Santo, Exu e outros Orixás.

As rodas de jongo expressam movimento e ritmo, simbolizando antiga dança de escravos; há grupos de Moçambique, quadrilha, caiapó, dança da fita; folias de Reis, do Divino e dança de São Gonçalo.

A miscigenação é retratada em curiosos conjuntos de figurinhas: a “festa de casamento” da preta com o branco, onde há padres, os padrinhos, menina carregando o anel, convidados, tocadores de música, o casal de preto com mulher branco, com filho preto e filha branca.

Coloridas e pitorescas figurinhas de tipos populares contam usos e costumes: vendedores de galinhas, de laranjas; leiteiro, lenhador; mulheres socando no pilão, tocando galinhas e patos com a vassoura, costurando em máquinas de mão; o “bichento” tirando bicho do pé …

Detalhe da página 31, da edição nº 73 da Revista Paulistânia, onde este artigo foi publicado originalmente
Detalhe da página 31, da edição nº 73 da Revista Paulistânia, onde este artigo foi publicado originalmente

A temática, às vezes, é enriquecida de assuntos novos que o figureiro vê ou escuta. É o caso das figurinhas que representam os personagens do “mundo infantil de Monteiro Lobato”, criadas pela imaginação fértil de uma das mais antigas figureiras da rua Imaculada.

Embora não saiba ler, “ouviu contar” a estória das reinações de Narizinho Arrebitado, que hoje ela retrata com muita graça, assim como a Emília, o Visconde, o Marquês de Rabicó, d. Benta, Tia Anastácia fritando bolinhos, Pedrinho, o Saci e o burrinho que ela “ouviu dizer” que foi ao céu …

Os figureiros gostam de animais e com êles convivem. Criam então uma profusão de figurinhas zoomorfas: burrinho, galinha com pintinhos, carneiro, galo, vaca e um famoso pavão que de tão bonito, lá no morro é chamado de Galinho do Céu.

A técnica é primitiva: barro amassado com as mãos; tintas de cores vivas preparadas pelos figureiros ou compradas prontas; pernas de animais feitas às vezes de taquara ou madeira; orelhas de papelão, caudas de palha ou estopa.

Na modelagem usam os dedos e estiletes de madeira ou canivete.

As figuras são pequenas, de cores alegres, graciosas pela concepção ingênua e livre. As deformações decorrem da ignorância anatômica.

Depois de prontas, secam ao natural ou perto do fogão à lenha, sendo pintadas em seguida. São cruas e por isso, frágeis.

Os figureiros revelam capacidade criadora, guardando características ou particularidades próprias, apesar da proximidade de suas residências.

Superando dificuldades econômicas, às vezes doenças, e, quase sempre desconforto, continuam os figureiros do Morro, a modelar o barro, que pouco lhes rende, obedecendo a um impulso criador e mantendo uma tradição cujas origens se perdem nos tempos.

 

CERÂMICA DE OUTROS BAIRROS

Características bem diversas marcam a cerâmica modelada por artistas populares de outros bairros de Taubaté, mais ligados ao perímetro urbano.

Apesar da rusticidade do material e da técnica, as figuras demonstram profundo sendo de observação e maior sensibilidade interpretativa.

Permanece a espontaneidade na criação artística, porém, são menos marcantes os traços ingênuos e primitivos, revelando na originalidade e força de concepção, o ceramista mais evoluído, voltado quase sempre para os temas populares.

As peças de cerâmica, maiores que as do Morro, são queimadas (assadas) em fornos de olaria, o que lhes dá maior resistência e durabilidade; não são pintadas, apresentando por isso a bela cor avermelhada do barro queimado.

Alguns dos ceramistas, exímios na arte de modelagem, trabalham com destreza e perfeição; em poucos minutos surgem a figura imaginada e com tal equilíbrio na forma e na firmeza nos traços, que após alguns retoques, é obra acabada.

As figuras vigorosas na concepção, e, guardando as peculiaridades inconfundíveis de cada artista, retratam na sua expressiva e rústica beleza, tipos e temas populares, às vezes, de significado social: o Jeca, o Andarilho, o Pedinte, o escravo no tronco, a família pobre, a mulher, socando no pilão, violeiros e cantadores, caboclo cismando, o leilão, o comício …

Há figuras patológicas: a mulher do papo, o bêbado, a mulher da barriga d’água.

Os presépios formam originais e sugestivas composições artísticas: há festas típicas e cenas bíblicas ( Última Ceia, Juízo Final, Santíssima Trindade) e as figuras lendárias ( Pedro Malazarte), são criadas com arte e graça.

Na variada e copiosa produção desses exímios ceramistas, ressalta, porém, expressiva e comovente, a figura do homem do povo, humilde e desprotegido cuja tragédia, o artista inconscientemente caricaturiza num anseio, talvez, de maior compreensão e amor …

Consideradas como autêntica manifestação de arte popular, as figurinhas de Taubaté, fazem parte hoje, de coleções particulares e do acervo de museus nacionais e estrangeiros.

Por serem livres e espontâneas, traduzem na sua autenticidade, vivência e singeleza, a alma do povo, de que são precioso repositório.

 

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Publicado Originalmente na Revista Paulistânia nº73, de 1968.

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