Toda universidade tem suas figuras. Nas primeiras semanas de aula, a turma de 2008 de História da Unitau ouviu falar e muito do professor de História Antiga. “Esse é osso duro”, diziam. Só alguns sortudos sobreviveriam ás suas provas. O terror psicológico era tanto que antes da primeira prova, três já tinham desistido.
Era fato que dentre as questões existiria uma pergunta um tanto capciosa, uma “pegadinha” se preferirem. O problema era saber qual delas era a tal pegadinha. Talvez a que pareça a mais fácil. Esse era o nosso drama em História Antiga, História Econômica e História Medieval.
A única exigência para responder as questões dissertativas era: “ser conciso, coerente e, de preferencia, correto”. Tinha gente que se desesperava em ver aquelas quatro linhas na sua frente. Ou se escrevia de menos ou de mais. O certo era que nunca a sua resposta caberia naquelas quatro linhas. O motivo? Nervosismo. Afinal, era uma prova do Prof. Cyro Resende.
O engraçado é que se as sua as avaliações eram temidas por todos, acontecia o contrário com suas aulas. Elas, pelo menos para a nossa sala, eram descontraídas e agradáveis. As piadas sobre o cristianismo primitivo, os sarracenos dando uma cossa nos cruzados de Guy de Lusignan, o costume do senhor feudal dormir com a noiva de seu servo antes da lua de mel (a prima nocta), etc.
A imagem de carrasco foi desmentida justamente pela forma como ele conduzia essas aulas. Logo, dentre os professores preferidos da sala estava ele. Criou-se até uma “facção”: o Cyrismo. Foram até objeto de comparação com Pedro Valdo e os valdenses. Uma vez comentaram isso com ele. “Não vão me fazer que nem o Jim Jones, hein?”
Graças á ele a História Antiga e Medieval foi sendo desvendada para nós não como uma coleção de episódios bizarros, mas como uma série de processos que ainda nos influenciam hoje. Mais importante que saber a origem de Carlos Magno era entender como ele ajudou a formar um modelo de sociedade que influenciaria o resto da Europa.
Sim, ele podia ser um personagem polêmico devido á algumas de suas opiniões, mas é inegável que era um grande intelectual. Era dono de uma erudição impressionante, o que não o impedia de conservar um pensamento pragmático e um humor peculiar.
Lembro muito de suas aulas, mas principalmente de suas provas… Há alguns meses me deparei com um de seus livros aqui em Manaus. Tratava-se de uma análise das estratégias de guerra do general Erwin Rommel, “a Raposa do Deserto”. Era um estudo profundo e dinâmico. Nenhum pouco hermético, como muitos livros de História Militar costumam ser. Em outras palavras, era a cara do Cyrão.
Nos dois anos em que cursei História na Unitau tive a oportunidade de conhecer ótimos professores. O que devo a eles em conhecimento e amizade não está no gibi. Cyro era um deles. Admiração definia bem o que nós sentíamos por ele. E saudade define bem o que sentimos agora.
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6 Comments
Muito bom!
Mestre! Vai ficar a saudade =/.
assino embaixo Vinícius!
Fiquei super emocionada agora, ao ler esta matéria Vinícius Amaral em que me fez relembrar o nosso 1º ano de facul ao lado de personagens tão diversos , saudades dos colegas, amigos que fizemos e sem dúvida alguma dos nossos mestres, em particular o nosso Cyrão!!!
Belas palavras, o que passou…passou! Hoje ficou a suadade.
Vinícius Amaral Guarani Kaiowá vc conseguiu expressar os meus reais sentimentos…foi um orgulho fazer parte dessa história tbm…(Y)