Cyro de Barros Rezende Filho (1949 – 2012)

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Imersa em pesaroso luto, curva-se a comunidade científica diante de um tumulo que acaba de abrir-se para receber a fria lousa os despojos de um apostolo dedicado da cultura intelectual.

Um golpe avassalador, duro e irreparável, acaba de ceifar o fio de mais uma existência preciosa. Foi com assustadora surpresa que recebi a notícia da morte do professor Cyro,  o grande responsável pelo primeiro grande choque de realidade que tive sobre o que é ser um acadêmico. Foi o Cyro quem me botou no chão quando eu pensava que tudo seria fácil. Nunca vou esquecer daquele 2 que tirei na primeira prova que fiz na universidade. Uma lição, apesar da revolta e incompreensão.

Para mim, o Cyro não era exatamente um modelo a ser seguido, tinha algumas manias que reprovava, hábitos que às vezes questionava, mas, ao mesmo tempo, o admirava. Pode parecer ambíguo… e é! Apesar disto, tornou-se exemplo de cientista.

Foi ele também quem colocou minha autonomia científica à prova. Em princípio, seria ele o meu orientador. Ele se empolgou com a ideia de eu ter escolhido falar sobre história política, tema que era de seu domínio. Imediatamente, me levou até a copiadora da faculdade e me deu vários textos sobre o assunto e me orientou a estudar as obras de Gramsci. Fiz o que pediu. Foi um problemão, pois não sabia como dizer à ele que as ideias de Gramsci não combinavam com o que eu havia levantados nas pesquisas. Foi então que eu desafiei: “-Cyro, esse cara não sabe de nada. Tudo o que ele propõe aqui é descartável para o meu trabalho”. “- Então não te oriento”, foi a resposta imediata… surgiu um desconforto. Dias depois, enquanto tomava café, ele se senta ao meu lado e diz: “- Acho que podemos conversar”. A partir daí ficou tudo mais fácil, pois ele entendeu o que eu havia proposto e nasceu daí um respeito enorme entre nós. Mas mesmo assim, ele não quis me orientar. A partir desse episódio fiquei em dívida com ele. Ali eu sabia que poderia tentar dar passos mais largos, tentar ser grande, como ele foi.

O fato é que ele era um gênio, lidava com as questões da história com uma facilidade enorme, com a habilidade que poucos possuem. Quando questionado, raras as vezes evitava a resposta.

Na universidade, sempre foi referência. “- Ah, ainda vou ser inteligente assim”, era como muitos, mesmo que a distância, admiravam o saudoso professor.

Ele não nasceu em Taubaté, veio de São Paulo, depois de passar uma temporada de estudos em Londres. Chegou aqui em 1988 quando, em agosto daquele ano, tornou-se professor da Universidade de Taubaté, lecionando primeiro História Econômica e, depois, tornando-se titular da cadeira de História Antiga e Medieval.

A sua existência toda consagrou na tarefa nobre do nosso engrandecimento intelectual, enriquecendo a literatura histórica com numerosas obras de valor incontestável.

Dominava os campos das Ciências Sociais com tanta firmeza que transitava entre temas distintos com sutil leveza. Era um especialista em História Militar e, mais recentemente, encabeçava uma série de publicações sobre questões ambientais.

Atento, questionava sobre as mudanças no visual e no comportamento dos alunos, especialmente as alunas. Bem humorado, não perdia uma piada. Suas aulas eram recheadas de tensão, acumuladas em função do já sabido rigor que exigia, mas temperadas com suas máximas que passavam longe do politicamente correto.

Ele lutou e foi vitorioso. O seu nome honrado há de fulgir ao lado dos imortais no Pantheon da glória e no coração de todos os seus alunos e amigos, que a esta hora pranteiam a sua morte.

Morto, mas seu nome continua vivo nas páginas da nossa história.

Obrigado, professor.

 

Angelo Rubim

 

Na última terça-feira, dia 25 de setembro, o professor Cyro foi homenageado na Câmara Municipal durante as comemorações do Dia do Cientista. Merecida homenagem.

Deixo aqui o registro do seu último discurso, eternizado nos registros da nossa casa de leis:

 

 

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